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"Virado do avesso, o implacável imprevisto era o que nós, miúdos da escola, estudávamos como "História", história inofensiva, em que tudo quando é inesperado no seu próprio tempo é relatado na página do livro como inevitável. O terror do imprevisto é o que a ciência da História oculta, transformando uma tragédia numa epopeia."

A Conspiração Contra a América - Philip Roth

They fuck you up, your mum and dad.   

They may not mean to, but they do.   

They fill you with the faults they had

 And add some extra, just for you.


But they were fucked up in their turn

By fools in old-style hats and coats,   

Who half the time were soppy-stern

And half at one another’s throats.


Man hands on misery to man.

It deepens like a coastal shelf.

Get out as early as you can,

And don’t have any kids yourself.


 This Be The Verse (1971) - Philip Larkin

"(...) That love is the heritage, and cousin to death. That the only love can only be the first love, the only death the last, the only life within, and the only word... choked forever."

de Maggie Cassidy (1959), Jack Kerouac

"I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate.
All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die."



cena de Blade Runner (1982) - Ridley Scott

"TODA A GENTE, SEM TIRAR NEM PÔR, tem ambições, objetivos, iniciativas e metas. A meta deste rapaz em concreto era ser capaz de tocar com os lábios em cada centímetro quadrado do próprio corpo.
Os braços até aos ombros e a maior parte das pernas abaixo do joelho eram brincadeira de criança. No entanto, depois dessas zonas do corpo, a dificuldade aumentava tão abruptamente como uma saliência costeira. O rapaz veio a compreender que o aguardavam desafios inimagináveis. Tinha seis anos."

David Foster Wallace in O Rei Pálido


"Todos descobrem, mais tarde ou mais cedo na vida, que a felicidade perfeita não é realizável, mas poucos se detêm a pensar na consideração oposta: que também uma infelicidade perfeita é, igualmente, não realizável. Os momentos que se opõem à realização de ambos os estados-limites são da mesma natureza: derivam da nossa condição humana, que é inimiga de tudo o que é infinito. Opõe-se-lhe o nosso sempre insuficiente conhecimento do futuro; e a isto se chama, num caso, esperança; no outro, incerteza do amanhã. Opõe-se-lhe a certeza da morte, que impõe um limite a qualquer alegria, mas também a qualquer dor. Opõem-se-lhe as inevitáveis preocupações materiais que, assim como poluem qualquer felicidade duradoura, também distraem assiduamente a nossa atenção da desgraça que paira sobre nós, e tornam fragmentária e, por isso mesmo, suportável, a consciência dela."

in Se Isto é Um Homem - Primo Levi, 1947


DADA não sente nada, não é nada, nada, nada
É como as vossas esperanças: nada
Como os vossos paraísos: nada
Como os vossos ídolos: nada
Como os vossos políticos: nada
Como os vossos heróis: nada
Como os vossos artistas: nada
Como as vossas religiões: nada

Manifeste Cannibale Dada - Francis Picabia


"Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisa de muito estofo, pensar no que se pensa, ou pensou, ou está pensando, e que pensamento é esse que pensa o outro pensamento, não acabaríamos nunca mais."

Levantado do Chão (1980) - José Saramago

"Inscrita em caracteres de fogo por detrás da menor publicidade para as Canárias ou para os sais de banho, a felicidade constitui a referência absoluta da sociedade de consumo, revelando-se como o equivalente autêntico da salvação. Mas, que felicidade é esta, que assedia com tanta força ideológica a civilização moderna?"

in A Sociedade de Consumo (1970) - Jean Baudrillard





TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

"Ao pensar em Cronshaw, Philip lembrou-se do tapete persa que o poeta lhe dera, dizendo que ele oferecia uma resposta à sua pergunta sobre o sentido da vida. E, de súbito, a resposta ocorreu-lhe. Soltou uma risada. Agora que a tinha, era como um desses quebra-cabeças que nos obcecam até que alguém nos mostra a solução; ficamos então a imaginar como aquilo nos pôde escapar. A resposta era evidente. A vida não tem sentido. Sobre a terra, satélite de um astro que viaja velozmente pelo espaço, seres vivos surgiram sob a influência de condições criadas pela história do planeta. E, tendo assim havido um começo de vida na Terra, sob a influência de outras condições haverá um fim. O homem, que não é mais importante do que as outras formas de vida, não surgiu como o ponto culminante da criação, mas como uma reacção física ao meio ambiente. Philip lembrou-se da fábula do rei oriental que, desejando conhecer a história do homem, recebeu de um sábio quinhentos volumes; atarefado com os assuntos do governo, solicitou-lhe que os condensasse. Passados vinte anos, o sábio voltou e a sua história não tinha agora mais de cinquenta volumes; mas o rei, demasiado velho então para ler tantos e tão maçudos tomos, rogou-lhe que abreviasse uma vez mais a história. Passaram-se mais vinte anos e o sábio, velho e encarnecido, trouxe um único livro, no qual se continha a ciência que o rei procurava. Mas o rei jazia no seu leito de morte e não lhe sobraria tempo para ler nem aquele volume. O sábio, então, narrou-lhe a história do homem numa simples linha: nasceu, sofreu e morreu. A vida não tem nenhum sentido. E, vivendo, o homem não cumpre finalidade alguma. É indiferente que ele nasça ou não nasça, viva ou deixe de viver. A vida é insignificante e a morte sem consequência. Philip exultou como exultara na infância, quando o peso da crença em Deus lhe fora tirado dos ombros. Parecia-lhe que alijava agora a última carga de responsabilidade. E, pela primeira vez, sentiu-se livre. A sua insignificância transformava-se em força e ele sentia-se de súbito um igual do destino cruel que parecia persegui-lo. Porque se a vida não tem sentido, o mundo fica despojado da sua crueldade. O que fizesse ou deixasse de fazer nada significava. O malogro não tinha importância e o êxito redundava em nada. Era a criatura mais insignificante naquela massa pululante da humanidade que, por breve espaço, ocupa a superfície da Terra. E era todo-poderoso porque arrancara ao caos o segredo da sua inanidade. Os pensamentos atropelavam-se-lhe no cérebro excitado. Philip aspirava o ar profundamente, com jubilosa satisfação. Tinha vontade de pular e cantar. Havia meses que não se sentia tão feliz. 
- Oh! Vida - gritou intimamente - Oh! Vida, onde está o teu aguilhão?
Porque a mesma onda de fantasia que lhe mostrara, com toda a força de uma demonstração matemática, que a vida não tinha sentido, trazia consigo outra ideia. E fora por isso que Cronshaw, imaginava ele, lhe dera o tapete persa. Assim como o tecelão desenha o tapete sem outro cuidado que não o prazer estético, pode um homem viver a sua vida; ou, para quem for obrigado a acreditar que os seus actos não dependem da vontade, nada impede de contemplar a sua própria existência como um plano estabelecido. Mas não entra nessa procura nem necessidade nem utilidade. É simplesmente a busca de uma satisfação pessoal.  De acontecimentos diversos, acções, sentimentos, pensamentos, podia traçar um desenho regular, trabalhado, complicado ou belo. Essa faculdade de escolher não será talvez uma ilusão, um prodigioso escamoteio, graças ao qual as aparências se irisam de reflexos? Não importava: assim parecia; portanto, para ele, era. No curso contínuo da vida (esse rio nascido de nenhuma fonte e que corre interminavelmente para mar algum) um imaginativo, uma vez convencido da vaidade da existência, pode encontrar uma satisfação pessoal na escolha dos vários fios que formam o desenho. Existe um padrão, o mais simples, perfeito e belo, no qual um homem nasce, chega à virilidade, casa, procria filhos, luta pelo pão e morre. Mas outros há, intrincados e maravilhosos, nos quais a felicidade não entra e onde não se tenta o êxito; nesses, pode-se descobrir uma graça mais perturbadora. Algumas vidas, e entre elas a de Hayward, são truncadas pela cega indiferença da sorte, quando o desenho ainda está imperfeito. Nesse caso, é reconfortante pensar que isso não tem a mínima importância. Outras vidas, como a de Cronshaw, oferecem um desenho difícil de seguir: é preciso mudar de ponto de vista, alterar velhos conceitos, para poder compreender que semelhante vida é a sua própria justificação. Afastando o desejo de felicidade, Philip pensava libertar-se das derradeiras ilusões. A vida afigurava-se-lhe horrível quando medida pelo padrão da felicidade, mas agora tinha a impressão de ganhar forças ao descobrir que ela podia ser aferida por outros estalões. A felicidade importava tão pouco como a dor. Uma e outra contribuíam, como todos os demais pormenores da vida, para a elaboração do desenho. Por um instante, teve a impressão de pairar acima dos incidentes da sua existência e sentia que eles já não podiam atingi-lo como antes. O que lhe acontecesse agora seria apenas mais um motivo a acrescentar à complexidade do padrão. E quando o fim se aproximasse, rejubilaria pelo seu acabamento. seria uma obra de arte e nem por ser ele o único a conhecer-lhe a existência deixaria de ser bela; e com a sua morte a existência cessaria imediatamente de o ser.
Philip sentia-se feliz. "

excerto de Servidão Humana / Of Human Bondage (1915) - de Somerset Maugham

"O recém-nascido não concebe que o seu corpo é mais parte de si próprio do que os objectos que o rodeiam, e brinca com os dedos dos pés sem a mínima noção de que lhe pertencem mais do que a sua roca; e é só pouco a pouco, através da dor, que compreende a realidade do corpo. São necessárias experiências idênticas para que o indivíduo se torne consciente de si próprio; contudo há uma diferença: enquanto todos igualmente adquirem consciência do corpo como um organismo completo e separado, nem todos adquirem igualmente e a consciência de si próprios como uma personalidade completa e separada. O sentimento de diferenciação dos outros surge para a maioria com a puberdade mas não se desenvolve sempre a um grau tal que torne perceptível ao indivíduo a diferença entre o indivíduo e o seu próximo. São estes, os tão pouco conscientes de si próprios como as abelhas numa colmeia, os afortunados na vida, pois têm os melhores ensejos de felicidade: as suas actividades são partilhadas por todos e os seus prazeres só são prazeres porque fruídos em comum (...). Por sua causa tem o homem sido considerado um animal sociável."

in Servidão Humana de W. Somerset Maugham

" Caminho: faixa de terra sobre a qual se anda a pé. A estrada distingue-se do caminho não só por ser percorrida de automóvel, mas também por ser uma simples linha ligando um ponto ao outro. A estrada não tem em si própria qualquer sentido; só têm sentido os dois pontos que ela liga. O caminho é uma homenagem ao espaço. Cada  trecho do caminho é em si próprio dotado de um sentido e convida-nos a uma pausa. A estrada é uma desvalorização triunfal do espaço, que hoje não passa de um entrave aos movimentos do homem, , de uma perda de tempo.
Antes ainda de desaparecerem da paisagem, os caminhos desapareceram da alma humana: o homem já não sente o desejo de caminhar e de extrair disso um prazer. E também a sua vida ele já não vê como um caminho, mas como uma estrada: como uma linha conduzindo de uma etapa à seguinte, do posto de capitão ao posto de general, do estatuto de esposa ao estatuto de viúva. O tempo de viver reduziu-se a um simples obstáculo que é preciso ultrapassar a uma velocidade sempre crescente."

in A Imortalidade / Nesmrtelnost (1990) - Milan Kundera

"O sentimento, por definição, surge em nós sem que disso nos apercebamos e muitas vezes contra nossa vontade. A partir do momento em que queremos experimentá-lo (a partir do momento em que decidimos experimentá-lo, como Dom Quixote decidiu amar Dulcineia), o sentimento já não é sentimento, mas imitação de sentimento, sua exibição. É o que correntemente se chama histeria. É por isso que o homo sentimentalis (ou por outras palavras, o homem que erigiu o sentimento em valor) é na realidade idêntico ao homo hystericus.
O que não quer dizer que um homem que imita um sentimento o não experimente. O actor que desempenha o papel do velho rei Lear sente no palco, frente aos espectadores, a autêntica tristeza de um homem abandonado e traído, mas essa tristeza evapora-se no preciso instante em que a peça termina. É por isso que o homo sentimentalis, logo a seguir a ter-nos assombrado com os seus grandes sentimentos, nos desconcerta com a sua inexplicável indiferença."

in A Imortalidade / Nesmrtelnost (1990) - Milan Kundera

" Mais cedo ou mais tarde, confrontados com a evidência diária da nossa interdependência, acabaremos por reconhecer que ninguém pode reclamar a propriedade indivisa da Terra, ou de qualquer parte dela. O mais relevante na nossa interdependência é que a «solidariedade do destino» não é uma questão de escolha. O que depende verdadeiramente da nossa escolha é decidir se esse destino comum terminará em destruição mútua ou gerará uma solidariedade de acção, sentimentos e propósitos. Independentemente dos nossos diversos credos políticos ou religiosos, muitas vezes agudamente distintos e por vezes ardentemente antagónicos, todos desejamos viver com dignidade, sem humilhações, sem medo, sem que nos seja negada a felicidade. Este é um terreno vasto e suficientemente sólido para começar a construir uma solidariedade de pensamento e acção."

in A Sociedade Sitiada (2002) - Zygmunt Bauman

"(...) seria bom que os que se suicidam e não nos deixam ignorar o facto soubessem, de uma vez por todas, que não provocam tristeza, da autêntica, nem remorsos. E contudo é esse sempre o objectivo deles. O que provocam é uma farsa, ou uma desesperada tentativa de farsa. E que faz que os amigos visados, por muito aflitos que estejam, se preocupem muito mais com explicar aos outros como não puderam compreender: «Sabes bem como ele era», em resumo, estejam mais preocupados em forjar um alibi do que a chorar o morto. (...) Mas há um verdadeiro pesadelo para os que ficam, é o «se». O condicional, o tempo do condicional tal como é conjugado aborreceu-me sempre prodigiosamente. Para mim, «se eu tivesse sabido», «se eu tivesse compreendido», em resumo, o «se» foi sempre uma coisa morta, porque imaginada antes de ter sido vivida e, portanto, forçosamente inadmissível. O «se» pareceu-me sempre o cúmulo da estupidez, da zombaria e do desprezo, porque afinal, se soubéssemos por que razão vivemos, se soubéssemos porque morre alguém a quem amamos, ou ainda mais estupidamente, porque razão já não nos ama alguém a quem amamos, saberíamos muita coisa! O horror que acompanha o suicídio dos nossos amigos é devido ao facto de dizermos mais uma vez o «se» e verificarmos que ele se fixa bruscamente, ou, pelo menos, é assinalável no espaço e no tempo: «Que estupidez, deixei o Arthur às três horas e parecia bem disposto. Se tivesse adivinhado que...» «Que estupidez, cruzei-me com ele à frente do flore, disse-me adeus com a mão. Se...». E esta multidão de pequenas recordações que todos nos vêm relatar torna-se num bando de tubarões decididos a darem cabo de nós. Todas essas recordações ocupam um lugar no tempo e no espaço, são portanto insuportáveis. porque afinal, se ler num jornal que o Arthur morreu  num desastre de automóvel (...), segundo as minhas relações com o Arthur, dou com a cabeça na parede, telefono à mãe dele, choro ou digo simplesmente: «Coitado do Arthur, guiava mal.» Mas se o mesmo Arthur decidiu que a vida já não era possível, e portanto, de certa maneira, tomou decisões sobre a minha vida, uma vez que era um amigo, se ninguém o pôde impedir, nem os amigos dele nem os meus, nem sequer eu, o Arthur está morto e arrefece algures, sou levada a perguntar a mim mesma se ele não teria às vezes razão, esse Arthur ou qualquer outro. O suicida reduz a nada não só o coração dos outros, a ternura que sentem por ele, o sentido da responsabilidade, mas também a sua razão inicial de viver, que não é mais, se pensar bem no assunto, do que uma respiração e um latejar no pulso, é, às vezes, um olhar encantado diante de um jardim, de um ser humano ou de um projecto, por muito estúpido que seja. O suicídio deita tudo isto abaixo. Os suicidas são muito corajosos e muito culpados.(...)"

in Viver não Custa... / Des Bleus À L'Âme (1972) - Françoise Sagan

"A depressão é um assunto que está muito na moda, mas que não deixa por isso de ser fascinante. Comecei este romance-ensaio assim, com uma descrição deste estado. Desde então encontrei quinze casos semelhantes, e só escapei a uma depressão graças a esta estranha mania de alinhar palavras umas a seguir às outras, palavras que começavam a brotar em flores aos meus olhos e em ecos dentro da cabeça. E sempre que encontrava uma vítima da depressão, essa catástrofe - porque não se pode brincar com este assunto, nem falar de ociosidade ou de desleixo -, enternecia-me. Aliás, pensando bem, porque escrevemos senão para explicar aos «outros» que podem escapar a essa doença, ou, pelo menos, curar-se? A absurda e ingénua razão de ser de qualquer texto, romance, ensaio ou mesmo tese, é sempre esta mão estendida, este desejo incontido de provar estupidamente que há qualquer coisa a provar. É esta maneira cómica de querer demonstrar que há forças, correntes de força, correntes de fraqueza, mas que tudo isso é relativamente inofensivo na medida em que é formulável."

in Viver não Custa / Des Bleus À L'Âme (1972) - Françoise Sagan

"À medida que a necessidade se encontra socialmente sonhada, o sonho torna-se necessário. O espectáculo é o mau sonho da sociedade moderna acorrentada, que não expressa finalmente mais que o seu desejo de dormir. O espectáculo é o guardião deste sono."

"O espectáculo é o discurso ininterrupto que a ordem presente mantém consigo própria, o seu monólogo elogioso."

"A alienação do espectador em proveito do objecto contemplado (...) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo."

"O espectáculo é o «capital» a um tal grau de acumulação que se torna imagem."

excertos de A Sociedade do Espectáculo (1967) de Guy Debord

"Porque, fiquem sabendo, o êxito de um mendigo depende da sua capacidade de contar uma boa história. Primeiro que tudo, e o mais rápido possível, deve «filar» a vítima. Depois, deve contar a história que mais esteja de acordo com a personalidade e o temperamento dessa vítima em particular. Aqui levanta-se a maior dificuldade: no preciso momento em que a filar, deve começar a contá-la. Quase não há tempo para preparativos porque terá de adivinhar, num simples relance, qual a natureza da vítima e imaginar um enredo que lhe vá direito ao coração. O vagabundo de sucesso è um artista."

in Vagabundos cruzando a Noite (1907) - Jack London