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TOPS 2023 - LIVROS


1 - O Infinito Num Junco (2019) - Irene Vallejo

2 - The Origin of Totalitarianism (1951) - Hannah Arendt

3 - Slouching Thowards Bethlehem (1968) / White Album (1979) - Joan Didion

4 - A Crónica do Pássaro de Corda (1994) - Haruki Murakami

5 - O Livro do Riso e do Esquecimento (1978) - Milan Kundera

6 - Eichman in Jerusalem (1963) - Hannah Arendt


"Inscrita em caracteres de fogo por detrás da menor publicidade para as Canárias ou para os sais de banho, a felicidade constitui a referência absoluta da sociedade de consumo, revelando-se como o equivalente autêntico da salvação. Mas, que felicidade é esta, que assedia com tanta força ideológica a civilização moderna?"

in A Sociedade de Consumo (1970) - Jean Baudrillard

" Caminho: faixa de terra sobre a qual se anda a pé. A estrada distingue-se do caminho não só por ser percorrida de automóvel, mas também por ser uma simples linha ligando um ponto ao outro. A estrada não tem em si própria qualquer sentido; só têm sentido os dois pontos que ela liga. O caminho é uma homenagem ao espaço. Cada  trecho do caminho é em si próprio dotado de um sentido e convida-nos a uma pausa. A estrada é uma desvalorização triunfal do espaço, que hoje não passa de um entrave aos movimentos do homem, , de uma perda de tempo.
Antes ainda de desaparecerem da paisagem, os caminhos desapareceram da alma humana: o homem já não sente o desejo de caminhar e de extrair disso um prazer. E também a sua vida ele já não vê como um caminho, mas como uma estrada: como uma linha conduzindo de uma etapa à seguinte, do posto de capitão ao posto de general, do estatuto de esposa ao estatuto de viúva. O tempo de viver reduziu-se a um simples obstáculo que é preciso ultrapassar a uma velocidade sempre crescente."

in A Imortalidade / Nesmrtelnost (1990) - Milan Kundera

"O sentimento, por definição, surge em nós sem que disso nos apercebamos e muitas vezes contra nossa vontade. A partir do momento em que queremos experimentá-lo (a partir do momento em que decidimos experimentá-lo, como Dom Quixote decidiu amar Dulcineia), o sentimento já não é sentimento, mas imitação de sentimento, sua exibição. É o que correntemente se chama histeria. É por isso que o homo sentimentalis (ou por outras palavras, o homem que erigiu o sentimento em valor) é na realidade idêntico ao homo hystericus.
O que não quer dizer que um homem que imita um sentimento o não experimente. O actor que desempenha o papel do velho rei Lear sente no palco, frente aos espectadores, a autêntica tristeza de um homem abandonado e traído, mas essa tristeza evapora-se no preciso instante em que a peça termina. É por isso que o homo sentimentalis, logo a seguir a ter-nos assombrado com os seus grandes sentimentos, nos desconcerta com a sua inexplicável indiferença."

in A Imortalidade / Nesmrtelnost (1990) - Milan Kundera

" Mais cedo ou mais tarde, confrontados com a evidência diária da nossa interdependência, acabaremos por reconhecer que ninguém pode reclamar a propriedade indivisa da Terra, ou de qualquer parte dela. O mais relevante na nossa interdependência é que a «solidariedade do destino» não é uma questão de escolha. O que depende verdadeiramente da nossa escolha é decidir se esse destino comum terminará em destruição mútua ou gerará uma solidariedade de acção, sentimentos e propósitos. Independentemente dos nossos diversos credos políticos ou religiosos, muitas vezes agudamente distintos e por vezes ardentemente antagónicos, todos desejamos viver com dignidade, sem humilhações, sem medo, sem que nos seja negada a felicidade. Este é um terreno vasto e suficientemente sólido para começar a construir uma solidariedade de pensamento e acção."

in A Sociedade Sitiada (2002) - Zygmunt Bauman

"À medida que a necessidade se encontra socialmente sonhada, o sonho torna-se necessário. O espectáculo é o mau sonho da sociedade moderna acorrentada, que não expressa finalmente mais que o seu desejo de dormir. O espectáculo é o guardião deste sono."

"O espectáculo é o discurso ininterrupto que a ordem presente mantém consigo própria, o seu monólogo elogioso."

"A alienação do espectador em proveito do objecto contemplado (...) exprime-se assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende a sua própria existência e o seu próprio desejo."

"O espectáculo é o «capital» a um tal grau de acumulação que se torna imagem."

excertos de A Sociedade do Espectáculo (1967) de Guy Debord